As pesquisas realizadas no âmbito do Plano de Ação Nacional (PAN) Pato-Mergulhão estão sendo publicadas por revistas científicas internacionais. Neste mês de julho, o número 43 da Cotinga, publicação inglesa do Clube Neotropical de Aves (Neotropical Bird Club), traz dois estudos sobre o pato-mergulhão no Rio Novo, Tocantins. O trabalho foi realizado por pesquisadores da Funatura, do órgão ambiental do estado do Tocantins (Naturantins) e da Universidade Estadual do Maranhão, campus de Caxias.

O Mergus octosetaceus (nome científico) é considerado uma das aves aquáticas mais ameaçadas de extinção mundialmente. A sua população conta com menos de 250 indivíduos, que atualmente só sobrevivem no Brasil. Ele leva o título de “embaixador das águas brasileiras”, por ser um bioindicador de saúde ambiental.

A Cotinga é uma revista científica publicada na Inglaterra, das mais efetivas na divulgação de trabalhos com pato-mergulhão, em especial por aceitar trabalhos em português. A escolha da língua permite que os dois trabalhos sejam melhor difundidos entre os pesquisadores e interessados pela conservação da espécie, gestores das unidades de conservação e dos orgãos de meio ambiente correspondentes no país.

Os artigos apresentam o incremento da população do pato-mergulhão no Rio Novo nos últimos 10 anos, além da descoberta de dois novos ninhos ativos nesse trecho. Um deles foi achado na Estação Ecológica (ESEC) da Serra Geral do Tocantins, confirmando a importância da unidade de conservação para a sobrevivência da espécie.

Outro ponto importante mostrado nos artigos é a ocorrência de indivíduos com plumagem clara na população da natureza, tanto filhotes como adultos. “Essa alteração de plumagem, ressaltada inicialmente em nascimentos na população em cativeiro com um dos pais oriundos do Jalapão, sugere uma maior taxa de intercruzamentos de aparentados e redução de variabilidade genética”, explica o biólogo, doutor em Ecologia e pesquisador da Funatura, Paulo de Tarso Zuquim Antas .

Para contornar esse fenômeno, os pesquisadores avaliam a possibilidade de ações de manejo com soltura de exemplares nascidos em cativeiro, introdução de ovos nos ninhos ou de filhotes recém-nascidos na ninhada na natureza, oriundos de pais sem conexão com o Jalapão. “Dessa forma, podemos buscar o aumento paulatino da variabilidade genética local, uma ferramenta importante de conservação a longo prazo”, diz Paulo Antas.

Um outro resultado significativo dos estudos foi a mensuração da resposta dos patos-mergulhões à presença dos caiaques infláveis, usados em atividades turísticas e esportivas como rafting nos rios. “A pesquisa reforçou a necessidade de manter a restrição de embarcações no trecho acima da cachoeira da Velha até a divisa com a ESEC entre agosto e setembro, época de nidificação, avaliando a inclusão futura do mês de julho, período de saída do ninho dos filhotes. No trecho do Rio Novo abaixo da cachoeira e no Rio Soninho poderia haver a atividade durante o ano todo,”, disse Paulo Antas. Nese trecho, as atividades são permitidas nos demais meses, quando os filhotes já saíram dos ninhos, conforme portaria do Naturatins.

PAN Pato-mergulhão

O Programa Plano de Ação Nacional (PAN) Pato-Mergulhão é um importante projeto de monitoramento ambiental do bioma Cerrado, que tem como prioridade a verificação da situação populacional de locais de ocorrência histórica dessa espécie. Em 2018, a Funatura, representando as entidades participantes do PAN Pato-mergulhão, recebeu apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza para as ações de pesquisa populacional atual e aumento do conhecimento científico quanto às boas práticas de conservação do Mergus octosetaceus.

Confira abaixo os dois estudos recém publicados:

Ninhos e cavidades potenciais para nidificação do pato-mergulhão Mergus octosetaceus ao longo do rio Novo, Jalapão, Tocantins, Brasil

Dados populacionais e distribuição espacial do pato-mergulhão Mergus octosetaceus no rio Novo (Jalapão, Tocantins): recenseamento após dez anos