Em entrevista ao Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), o diretor-presidente da Funatura, Braulio Dias, destacou perspectivas e conceitos importantes para compreender as dinâmicas do fogo na natureza. Esclareceu as diferenças entre queimadas controladas e incêndios, desmistificando o senso comum de que fogo é apenas destruição e esclarecendo como este elemento também pode significar vida.

Braulio Dias é professor do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília e trabalha na interface ciência e política em meio ambiente, com ênfase em biodiversidade e serviços ecossistêmicos, polinização, controle de pragas, ecologia do fogo, savanas e monitoramento ambiental. Foi secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica da Organização das Nações Unidas (ONU) entre 2012 e 2017.

O professor demonstra ser essencial investir em políticas de manejo do fogo para proteger o meio ambiente e prevenir desastres como o ocorrido no Pantanal. Sem deixar de fora os povos e as comunidades tradicionais e agricultores familiares, Braulio lembra que as práticas ancestrais destes grupos contribuem com a construção de caminhos que façam do fogo um grande amigo da natureza.

Confira abaixo a entrevista completa.  

ISPN: Qual a diferença entre incêndios e queimadas?

Bráulio: Incêndio é um fogo descontrolado, de origem natural – raios, ou antrópica [ação do ser humano], que destrói um patrimônio natural (floresta e outras formas de vegetação) ou construído. Queimada é um fogo de origem antrópica intencional com o objetivo de reduzir a biomassa vegetal: para preparar área para cultivo agrícola ou renovação de pasto, eliminar restos de cultura agrícola ou controlar a biomassa combustível em vegetação natural. Desta forma, se reduzem os riscos de um incêndio florestal de grandes proporções ou restaura-se a dinâmica ecológica de ecossistemas campestres ou savânicos onde o fogo é um agente ecológico presente na história e evolução destes ecossistemas.

ISPN: De que forma as queimadas podem contribuir com a conservação do meio ambiente e das práticas tradicionais?

Bráulio: As queimadas podem ser benéficas ou maléficas ao meio ambiente dependendo das condições onde ocorrem. O Brasil possui uma grande diversidade de ecossistemas e vegetações nativas, mas podemos agrupá-los em dois grandes grupos em relação ao fogo: de um lado, aqueles ecossistemas e vegetações que evoluíram com a presença do fogo em climas com estação de seca pronunciada, onde o fogo pode ter um efeito benéfico na dinâmica e renovação da vegetação favorecendo, por exemplo, as floradas e a dispersão das sementes, além da oferta de rebrotas nutritivas para a fauna, e, cuja flora e fauna possuem adaptações para resistir e responder ao fogo. Por exemplo, casca suberosa das árvores, estruturas subterrâneas bem desenvolvidas, com raízes tuberosas, troncos subterrâneos e gemas protegidas do fogo. De outro lado, o Brasil tem os ecossistemas e vegetações que evoluíram em regiões de clima úmido ao longo do ano todo onde o fogo é um elemento estranho e cuja flora e fauna não possuem adaptações para resistir e responder ao fogo – nestes ecossistemas o fogo é sempre um fator de destruição ambiental.

Ademais, o impacto do fogo depende da época de ano, da sua frequência, extensão, intensidade e velocidade (tempo de residência) e das condições ambientais (temperatura, velocidade do vento e fenologia das plantas e dos animais).

Os povos indígenas, as comunidades tradicionais e os agricultores e pecuaristas tradicionais desenvolveram estratégias adaptativas de uso do fogo controlado que propiciam benefícios para estas comunidades sem causar grandes incêndios – são experiências que devem ser melhor documentadas e resgatadas. Na Austrália, por exemplo, o governo faz pagamento por serviço ambiental para estimular as populações aborígines a retomar as tradições de queima controlada em pequenas áreas ao longo do ano. Desta forma, aumenta-se a heterogeneidade das paisagens e reduz-se as emissões de gases de efeito estufa com a redução dos grandes incêndios.

ISPN: O que é manejo integrado do fogo? Como essa abordagem pode ajudar a prevenir os incêndios?

Bráulio: O manejo integrado do fogo é uma estratégia de gestão ambiental, adaptada a cada condição local, que visa reduzir as condições para a ocorrência de grandes incêndios florestais, restaura o papel ecológico do fogo nos ecossistemas e vegetações que evoluíram com o fogo, aceitando os incêndios naturais provocados por raios, dentro de limites, e promovendo queimadas prescritas controladas em ecossistemas e vegetações adaptadas ao fogo para reduzir o acúmulo de biomassa vegetal seca e para promover maior heterogeneidade espacial das paisagens.

ISPN: De que maneira o manejo integrado do fogo pode funcionar para os diferentes biomas?

Bráulio: O manejo integrado do fogo deve atuar nos ecossistemas úmidos para a prevenção de incêndios florestais orientando e controlando o uso do fogo nas práticas agrícolas e promovendo a construção de aceiros para evitar a propagação do fogo e para facilitar o controle do fogo onde necessário. Já nos ecossistemas adaptados ao fogo, deve promover o uso de queimadas prescritas e controladas onde as condições ecológicas assim permitirem e deve promover a proteção dos ecossistemas e habitats vulneráveis ao fogo nas paisagens campestres e savânicas (como por exemplo as veredas, as matas ribeirinhas e os campos rupestres).

Veja aqui entrevista com Braulio Dias pela ocasião da posse na Funatura.